
Vasco Prado Coelho, perdão, Roland Prado Coelho, perdão, Eduardo Prado Coelho incensou
hoje de manhã as revistas Blue Travel e Blue Living. E fez muito bem. Que as fotografias são óptimas, sem dúvida. Tão assim óptimas, que fazem com que a cidade de Almada chegue a ser uma cidade bonita, um paraíso de ironias. Mas não apenas estas; tantas outras revistas de viagens, que ficam por nomeadar, apontam, embelezam, descobrem locais, lugares, lagoas e patos onde nos apetece habitar. EPC rejubila por ter, ele próprio, e como diria o Jorge Perestrelo, com a «sua barriguinha», descoberto uma praia no México, a del Carmen, hoje banalizada nas páginas dessas mesmas revistas.
Mas não é isto que impressiona EPC. Diz ele: «o que me impressiona nestas revistas é que nunca vi nelas a mais intrometida mosca. E, no entanto, estes paraísos têm mosquitos que zumbem durante a noite, abelhas que nos conduzem ao hospital, moscas que apostaram em converter o paraíso no inferno. O que falta às revistas de viagens são as moscas. São todas de uma transparência bela e envolvente: nenhuma nos dá aquilo que podemos designar como o “atrito do real”. Ou as agruras de um viajante».
Ora, esta bela frase acabou de encontrar a sua utilidade, a de garantir que EPC nunca dirigirá uma revista de viagens. Às revistas de viagens faltam as moscas porque as revistas de viagens são, por definição e por necessidade, a ausência das «moscas». As revistas de viagens evitam a todo o custo o «atrito do real» porque sabem que o real não tem interesse nenhum. As revistas de viagens são, pelo contrário, ainda melhor que o real, são o real com lubrificante e duas pedras de gelo. São os
dois ou três Grants da dona Bina. As pessoas pagam para não ver «abelhas», «mosquitos» e «hospitais», sobretudo quando olham para lá do vidro da camioneta da carreira e, através do autocolante que diz «partir aqui em caso de necessidade», vêem que estão a passar pela rotunda do Centro-Sul a caminho do Fogueteiro. E não é porque as pessoas se estejam a alienar involuntariamente, é só porque vivem na Damaia. Há aqueles que, na Brandoa, fazem bandas como os Moonspell, uns que compram a Volta ao Mundo, e outros que são os primeiros do gang a morrer. Será que EPC nunca comprou a Playboy só para ler os artigos de fundo? Então, é a mesma coisa. Esta nostalgia neo-realista do atrito, do sujo, do grão na imagem cheira, aliás, um bocado a dogma. Outra coisa: e qual é o mal da transparência bela e envolvente? A abjuração da transparência bela e envolvente cai no erro de tomar por transparente aquilo que é espessamente opaco. Fosse transparente, e ver-se-iam as moscas. Caro Eduardo, no Nina paga-se não tanto para ter sexo mas para não se ser rejeitado – ou, dito de outra forma, é preciso não confundir as praias da Rotas e Destinos com as praias de Sophia de Mello Breyner.